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Quais ações brasileiras mais se aproximam dos princípios de Warren Buffett

Data: date_range 08/08/2026 - 12:02:01

Quais ações brasileiras mais se aproximam dos princípios de Warren Buffett ?

 

Encontrar uma empresa lucrativa ou uma ação negociada a múltiplos baixos é relativamente simples. Muito mais difícil é encontrar um negócio capaz de gerar bons retornos sobre o capital durante muitos anos, administrado racionalmente, com endividamento compatível com sua geração de caixa e, principalmente, negociado por um preço inferior ao seu valor intrínseco.

Essa combinação está no centro da filosofia de Warren Buffett.

Parte desses princípios nasceu dos ensinamentos de Benjamin Graham, professor de Buffett na Universidade Columbia e autor de O Investidor Inteligente. Graham popularizou conceitos como valor intrínseco e margem de segurança: comprar ativos por preços suficientemente inferiores ao valor estimado para reduzir as consequências de eventuais erros de avaliação.

Buffett, entretanto, evoluiu essa filosofia.

Principalmente sob influência de Charlie Munger, deixou de procurar prioritariamente empresas medianas extremamente baratas e passou a valorizar negócios extraordinários adquiridos por preços razoáveis.

Essa diferença é fundamental.

Uma ação barata não necessariamente representa um bom investimento. Da mesma maneira, uma empresa extraordinária pode se transformar em investimento ruim quando adquirida por um preço excessivamente elevado.

Partindo dessa lógica, selecionamos oito companhias brasileiras para verificar quais apresentam características mais próximas dos princípios de Buffett: Porto (PSSA3), BB Seguridade (BBSE3), Vivara (VIVA3), TOTVS (TOTS3), MAHLE Metal Leve (LEVE3), B3 (B3SA3), WEG (WEGE3) e ISA Energia Brasil (ISAE4).

A seleção não significa que Warren Buffett compraria essas ações nem representa recomendação de investimento. São candidatas que sobreviveram a uma primeira triagem de qualidade, rentabilidade, geração de caixa, perspectivas e estrutura financeira. O preço ainda precisa ser analisado separadamente.

 

O primeiro teste: Entender o negócio

 

Um dos princípios mais conhecidos de Buffett é permanecer dentro de seu "círculo de competência".

Três perguntas são fundamentais:

O negócio é simples e compreensível ?

Possui histórico operacional consistente ?

Suas perspectivas de longo prazo permanecem favoráveis ?

Isso explica por que simplesmente encontrar empresas com elevado ROE não é suficiente.

Um retorno extraordinário produzido durante dois ou três anos pode desaparecer rapidamente se a companhia não possuir alguma vantagem competitiva capaz de protegê-la.

Essa vantagem — frequentemente chamada de moat, ou fosso econômico — pode assumir diferentes formas: marca, escala, distribuição, custos de troca, tecnologia, efeitos de rede, regulação ou simplesmente uma estrutura de custos difícil de reproduzir.

 

O segundo teste está na administração

 

Buffett também procura administradores capazes de utilizar racionalmente o dinheiro dos acionistas.

Isso envolve outras três perguntas:

A administração é racional ?

É transparente com seus acionistas ?

Consegue resistir ao chamado imperativo institucional ?

O último conceito é particularmente interessante. Empresas frequentemente realizam aquisições, expansões ou investimentos porque seus concorrentes estão fazendo a mesma coisa.

Para Buffett, crescer por crescer não significa criar valor.

Uma companhia que investe R$ 1 bilhão para produzir apenas R$ 50 milhões adicionais de lucro pode estar aumentando de tamanho e, simultaneamente, destruindo valor econômico.

A pergunta correta passa a ser: quanto retorno cada real adicional reinvestido está produzindo ?

 

ROE, margens e os “lucros do proprietário

 

A terceira etapa é financeira.

Buffett observa a capacidade da empresa de produzir retornos sobre o patrimônio, manter boas margens e converter resultados contábeis em dinheiro.

Um conceito particularmente importante são os owner earnings, ou “lucros do proprietário”.

De maneira simplificada, podemos pensar em:

Owner Earnings = lucro líquido + depreciação e amortização – investimentos necessários para manter a capacidade competitiva do negócio – necessidades adicionais de capital de giro.

A diferença é importante.

Duas empresas podem apresentar lucro líquido de R$ 1 bilhão.

A primeira precisa reinvestir R$ 800 milhões todos os anos simplesmente para manter suas operações.

A segunda precisa reinvestir apenas R$ 200 milhões.

Mesmo apresentando o mesmo lucro contábil, economicamente são negócios muito diferentes.

 

Um filtro adicional: Dívida

 

Acrescentamos ainda um critério importante à análise: endividamento.

Buffett historicamente valoriza solidez financeira. Por isso, não basta observar crescimento de receita, EBITDA ou lucro sem perguntar quanto capital de terceiros foi necessário para produzi-los.

Isso não significa eliminar qualquer empresa endividada.

O importante é avaliar se a dívida é compatível com a previsibilidade dos fluxos de caixa, quanto custa, quais seus vencimentos e, principalmente, qual retorno está sendo obtido sobre o capital financiado.

Esse ponto se torna particularmente relevante para empresas de infraestrutura, cuja elevada previsibilidade de receitas permite operar racionalmente com alavancagem maior do que companhias sujeitas a ciclos econômicos intensos.

 

Porto (PSSA3): Rentabilidade e força da marca

 

A Porto aparece como uma das candidatas mais completas.

Seguros constituem um negócio relativamente compreensível e a companhia construiu ao longo das décadas uma marca reconhecida, expandindo posteriormente para saúde, serviços e produtos financeiros.

O ponto especialmente interessante está na rentabilidade.

Além de gerar resultados elevados sobre o patrimônio, seguros possuem uma característica historicamente muito apreciada por Buffett: o float, recursos recebidos antecipadamente por meio dos prêmios que somente serão desembolsados posteriormente no pagamento dos sinistros.

A grande questão para a Porto não está apenas em continuar crescendo.

Será necessário verificar se a expansão para novos negócios consegue preservar os elevados retornos obtidos historicamente pelo segmento de seguros.

Portanto, PSSA3 avança principalmente por combinar marca, histórico, rentabilidade e geração de caixa.

 

BB Seguridade (BBSE3): Muito lucro para pouco capital

 

A BB Seguridade apresenta uma característica extremamente interessante sob a ótica Buffett: seu modelo não exige grandes investimentos em fábricas, máquinas ou estoques para crescer.

Isso tende a aumentar a parcela do lucro que efetivamente pode chegar ao proprietário do negócio.

O acesso à enorme rede de distribuição associada ao Banco do Brasil também constitui uma vantagem difícil de reproduzir.

Por outro lado, existe uma questão que não pode ser ignorada: o controlador estatal.

Nosso teste de gestão deverá verificar se a alocação de capital e as decisões estratégicas permanecem alinhadas à criação de valor para todos os acionistas.

Financeiramente, entretanto, BBSE3 permanece como uma das candidatas mais fortes desta seleção.

 

Vivara (VIVA3): Quanto vale uma marca ?

 

Vivara traz algo diferente para a análise: marca e poder de diferenciação.

A companhia construiu uma operação verticalizada, acompanhando seus produtos desde a concepção até a venda ao consumidor.

Essa integração oferece maior controle sobre desenvolvimento, qualidade e margens.

Para Buffett, entretanto, abrir lojas não representa necessariamente criação de valor.

Precisaremos analisar o retorno incremental das novas unidades.

Se a empresa consegue reinvestir os lucros obtendo retornos elevados sobre cada real adicional empregado na expansão, VIVA3 poderá apresentar uma característica muito valiosa: uma longa avenida para reinvestimento do capital.

Caso o crescimento exija cada vez mais investimentos para produzir retornos menores, a conclusão será diferente.

 

TOTVS (TOTS3): O poder dos custos de troca

 

TOTVS possui uma vantagem competitiva bastante diferente.

Uma empresa que utiliza sistemas ERP para controlar estoque, faturamento, contabilidade, folha de pagamento e processos internos não consegue simplesmente trocar de fornecedor da noite para o dia.

Migrar sistemas envolve dados, treinamento, integração e riscos operacionais.

Esses chamados switching costs ajudam a produzir receitas recorrentes.

Além disso, software possui uma característica economicamente atraente: depois de desenvolvida a plataforma, o crescimento pode ocorrer sem aumento proporcional dos ativos físicos.

Mas há uma pergunta importante.

A TOTVS realizou diversas aquisições ao longo de sua trajetória. Portanto, precisaremos verificar se essas operações efetivamente elevaram os lucros por ação e o retorno sobre o capital ou simplesmente aumentaram o tamanho da companhia.

É exatamente nesse ponto que entra o princípio Buffett da alocação racional de capital.

 

Metal Leve (LEVE3): Retorno elevado diante de uma transformação estrutural

 

A MAHLE Metal Leve ganhou espaço entre nossas oito candidatas depois da aplicação preliminar dos filtros financeiros.

A companhia possui longo histórico operacional e atua tanto no fornecimento de componentes para montadoras quanto no mercado de reposição.

A rentabilidade histórica e a capacidade de geração de caixa chamam atenção, enquanto seu endividamento precisa ser acompanhado, mas não constitui isoladamente motivo para eliminação.

Há, entretanto, um risco estrutural particularmente importante.

A eletrificação da frota mundial deverá reduzir gradualmente a utilização de determinados componentes ligados aos motores a combustão.

Ao mesmo tempo, a enorme frota existente garante demanda no mercado de reposição durante muitos anos.

Portanto, o teste Buffett para Metal Leve não será apenas financeiro.

A pergunta será:

O negócio continuará apresentando vantagem competitiva e capacidade de geração de caixa daqui a dez ou vinte anos ?

Se a resposta for positiva e o valuation oferecer desconto suficiente, LEVE3 poderá se tornar uma das candidatas mais interessantes do estudo.

 

B3 (B3SA3): Um fosso econômico difícil de atravessar

 

B3 talvez apresente um dos moats mais evidentes da Bolsa brasileira.

Sua infraestrutura conecta participantes do mercado de capitais, corretoras, bancos, empresas e investidores.

Escala, tecnologia, regulação, confiança e efeitos de rede criam barreiras significativas à entrada.

É muito difícil reproduzir rapidamente uma infraestrutura dessa dimensão.

Além disso, parte relevante de sua estrutura possui características de elevada escalabilidade: aumentar volumes negociados não exige crescimento proporcional dos ativos físicos.

Isso tende a favorecer margens e geração de caixa.

A principal questão provavelmente será o preço.

Quando uma vantagem competitiva é evidente, normalmente o mercado também consegue enxergá-la.

 

WEG (WEGE3): A melhor empresa pode não ser a melhor ação

 

WEG talvez represente o caso mais didático de todo o artigo.

A companhia possui atuação internacional, amplo portfólio de produtos e exposição a tendências estruturais como automação, eficiência energética, eletrificação e expansão da infraestrutura elétrica.

Poucas empresas brasileiras apresentam combinação semelhante de crescimento, internacionalização, inovação e eficiência na alocação de capital.

Portanto, WEGE3 possui grandes chances de aparecer entre as primeiras colocadas no teste de qualidade.

Mas Buffett faria outra pergunta:

Quanto dessa qualidade já está embutido no preço da ação ?

Uma empresa extraordinária pode produzir um investimento apenas razoável quando adquirida por valuation excessivamente elevado.

Por isso, WEG poderá terminar nosso estudo como a melhor companhia e não necessariamente como a ação que apresenta maior margem de segurança.

 

ISA Energia Brasil (ISAE4): Previsibilidade também é uma vantagem competitiva

 

A inclusão da ISA Energia Brasil introduz uma característica inexistente nas outras sete candidatas: receita regulada de longo prazo.

O modelo de transmissão é relativamente simples de compreender.

A transmissora disponibiliza sua infraestrutura ao Sistema Interligado Nacional e recebe uma Receita Anual Permitida (RAP). Dessa forma, sua receita depende muito menos da quantidade de energia efetivamente transportada do que ocorre em diversos outros segmentos econômicos.

Isso proporciona elevada previsibilidade.

Existem também barreiras à entrada significativas. Construir milhares de quilômetros de linhas, subestações e infraestrutura de transmissão exige capital, conhecimento técnico, licenciamento, concessões e capacidade operacional.

A ISA Energia Brasil possui posição particularmente relevante nessa estrutura: responde por aproximadamente 30% da energia transmitida pelo Sistema Interligado Nacional e está presente em 18 estados.

Ao mesmo tempo, continua investindo.

Desde 2016, conquistou 19 lotes de transmissão que representam R$ 15,8 bilhões em investimentos regulatórios ponderados e potencial de aproximadamente R$ 2,1 bilhões adicionais de RAP após a entrada dos projetos em operação.

Há ainda cerca de R$ 6,9 bilhões em projetos de reforços e melhorias autorizados para execução entre 2026 e 2031.

Aqui aparece justamente a pergunta Buffett:

Esses bilhões reinvestidos estão produzindo retorno suficientemente elevado para os acionistas ?

Transmissão exige muito mais capital do que software, seguros ou infraestrutura de mercado financeiro.

Consequentemente, não devemos comparar diretamente sua alavancagem com BB Seguridade ou B3.

Precisamos avaliar a dívida em relação à previsibilidade da RAP, duração das concessões, custo de financiamento e retorno dos novos projetos.

Outro aspecto interessante é a política de distribuição. A companhia informa como prática distribuir pelo menos 75% do lucro líquido regulatório, utilizado como aproximação de sua geração de caixa, respeitadas as necessidades financeiras da operação.

Portanto, ISAE4 representa um caso diferente no teste Buffett:

Menor crescimento potencial do que empresas de tecnologia, mas elevada previsibilidade e visibilidade dos fluxos futuros.

 

O teste de um dólar

 

Buffett propõe uma forma particularmente interessante de avaliar a administração.

Ao longo de vários anos, cada dólar de lucro que a empresa decidiu reter, em vez de distribuir aos acionistas, deveria produzir pelo menos um dólar adicional de valor de mercado.

Adaptado para o Brasil, poderíamos perguntar:

Para cada R$ 1 de lucro retido pela empresa nos últimos dez anos, quantos reais adicionais de valor foram criados para os acionistas ?

Esse cálculo será especialmente interessante em empresas como WEG e TOTVS, que reinvestiram pesadamente no crescimento.

Em ISA Energia, o teste será ainda mais revelador: precisamos verificar se os grandes investimentos necessários para construir e ampliar a infraestrutura efetivamente produziram valor proporcionalmente superior para os acionistas.

Já negócios como BB Seguridade apresentam dinâmica diferente, devolvendo parcela maior dos lucros aos acionistas.

 

Qual é o valor da empresa ?

 

Finalmente chegamos à herança mais importante de Benjamin Graham: margem de segurança.

Depois de identificar as melhores empresas, precisamos estimar quanto realmente valem.

Uma maneira de fazer isso será projetar os owner earnings futuros sob três cenários:

Conservador, base e otimista.

Esses fluxos deverão ser trazidos a valor presente utilizando uma taxa de desconto compatível com o risco e com o ambiente brasileiro.

Somente então poderemos comparar:

valor intrínseco estimado × cotação da ação.

Uma margem de segurança de 20%, 30% ou mais poderá ser utilizada justamente para reconhecer uma verdade fundamental dos investimentos:

Nossas estimativas podem estar erradas.

Quanto maior a incerteza sobre o negócio, maior deveria ser a margem exigida.

 

Qualidade primeiro, preço depois

 

Talvez essa seja a principal diferença entre simplesmente procurar ações baratas e investir seguindo os princípios associados a Warren Buffett.

P/L baixo não basta.

Dividend yield elevado não basta.

ROE elevado durante um único ano também não basta.

É necessário compreender o negócio, identificar sua vantagem competitiva, estudar a administração, analisar como o capital foi empregado, verificar quanto lucro efetivamente se transforma em caixa, avaliar o endividamento e determinar se as perspectivas de longo prazo permanecem favoráveis.

Somente depois vem o preço.

É possível que WEG termine como a melhor empresa deste estudo e não apresente margem de segurança.

Também é possível que companhias menos celebradas pelo mercado, como Metal Leve ou Vivara, apresentem uma relação diferente entre qualidade e preço.

ISA Energia acrescenta uma terceira possibilidade: um negócio de crescimento mais moderado, mas cujos fluxos de caixa podem ser consideravelmente mais previsíveis.

Ou ainda que, depois de realizarmos todos os cálculos, nenhuma das oito esteja suficientemente barata.

Essa última possibilidade também precisa ser aceita.

Afinal, uma das lições mais importantes da filosofia de Buffett talvez seja justamente a capacidade de esperar.

O objetivo não é encontrar uma justificativa para comprar uma ação.

É encontrar um excelente negócio, compreender seus riscos e somente investir quando a diferença entre preço e valor for suficientemente favorável.

Disclaimer:

Este artigo possui finalidade exclusivamente educacional e informativa. As empresas mencionadas foram selecionadas para aplicação dos princípios associados à filosofia de investimentos de Warren Buffett e Benjamin Graham. A análise não constitui recomendação de compra, venda ou manutenção de valores mobiliários.

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