Dívida Bruta/Patrimônio Líquido: Por que empresas pouco endividadas podem estar mais preparadas para crises
A Ambev, Bemobi, Ferbasa, Grazziotin, Grendene, Locaweb, Lojas Renner, Metisa, Tegma, TIM e Vivara estão entre as empresas que possuem atualmente e nos últimos anos o menor nível de endividamento (Dívida Bruta/Patrimônio Líquido) da B3. No entanto, além desse indicador, o investidor precisa olhar também para caixa, geração de recursos, vencimentos, moeda da dívida e passivos contingentes.
Uma das perguntas mais importantes que um investidor de longo prazo deve fazer antes de comprar uma ação é relativamente simples:
Como está a saúde financeira da empresa?
Uma companhia pode possuir excelentes marcas, elevada participação de mercado, forte crescimento de receita e margens atrativas. Porém, se estiver excessivamente endividada, parte importante do valor gerado pela operação pode acabar sendo direcionada para credores na forma de juros e amortizações.
O problema fica ainda maior quando o cenário econômico se deteriora.
Em uma crise, é comum ocorrer simultaneamente uma redução das vendas, compressão das margens, aumento do capital de giro, queda do lucro e encarecimento do crédito. Uma empresa muito alavancada pode, nesse momento, enfrentar dificuldades justamente quando mais precisa de recursos.
Por outro lado, empresas que chegam a períodos adversos com caixa elevado e baixa dívida possuem maior capacidade de preservar investimentos, manter suas operações e até aproveitar oportunidades deixadas pelos concorrentes mais pressionados financeiramente.
É nesse contexto que ganha importância o indicador Dívida Bruta/Patrimônio Líquido.
Uma análise da base utilizada neste estudo mostra que Ambev, Bemobi, Ferbasa, Grazziotin, Grendene, Locaweb, Lojas Renner, Metisa, Tegma, TIM e Vivara apresentavam relações relativamente baixas entre dívida bruta e patrimônio líquido no 2T26, além de histórico predominantemente conservador em 2023, 2024 e 2025.
Entretanto, a análise também mostra uma importante lição: não basta olhar para a dívida.
É necessário verificar o caixa, a geração de fluxo de caixa, o prazo dos vencimentos, a exposição cambial, o custo da dívida e, principalmente, os passivos contingentes.
O caso da Lojas Renner é particularmente interessante nesse sentido, pois demonstra que uma empresa pode apresentar uma posição financeira muito confortável e, simultaneamente, possuir uma exposição contingente tributária bilionária que merece acompanhamento.
O indicador Dívida Bruta/Patrimônio Líquido compara o total das dívidas financeiras de uma companhia com o patrimônio pertencente aos seus acionistas.
A fórmula é:
Dívida Bruta/PL = Dívida Bruta ÷ Patrimônio Líquido
Se uma companhia possui R$ 1 bilhão de patrimônio líquido e R$ 200 milhões de dívida bruta, por exemplo:
Dívida Bruta/PL = 0,20x
Isso significa que, para cada R$ 1,00 de capital próprio, a empresa possui R$ 0,20 de dívida financeira.
Quanto menor a relação, menor tende a ser a dependência de capital de terceiros.
Entretanto, é importante destacar desde o início:
Dívida Bruta/PL baixa não significa automaticamente que a empresa seja um bom investimento.
Uma empresa pode ter dívida praticamente zero e apresentar:
Portanto, o indicador deve ser interpretado como uma medida de risco e estrutura financeira, e não como uma medida isolada de qualidade empresarial.
O patrimônio líquido representa, de maneira simplificada, os recursos pertencentes aos acionistas depois da dedução dos passivos.
Quando a dívida é pequena em relação a esse patrimônio, existe uma espécie de colchão financeiro maior para absorver eventuais perdas.
Imagine duas empresas:
Patrimônio líquido: R$ 1 bilhão
Dívida bruta: R$ 100 milhões
Dívida Bruta/PL = 0,10x
Patrimônio líquido: R$ 1 bilhão
Dívida bruta: R$ 1,5 bilhão
Dívida Bruta/PL = 1,50x
Se ambas sofrerem uma forte redução dos lucros, a segunda estará, em princípio, muito mais pressionada financeiramente.
Entretanto, existe uma limitação importa.
A Empresa B poderia possuir R$ 1,4 bilhão em caixa, enquanto a Empresa A poderia possuir apenas R$ 10 milhões.
Nesse caso, a análise exclusivamente baseada na dívida bruta produziria uma conclusão incompleta.
É por isso que outros indicadores precisam ser utilizados.
A Dívida Líquida procura considerar o caixa existente na companhia.
A fórmula simplificada é:
Dívida Líquida = Dívida Bruta – Caixa e aplicações financeiras
Consequentemente:
Dívida Líquida/PL = Dívida Líquida ÷ Patrimônio Líquido
Uma empresa pode apresentar Dívida Bruta/PL de 0,20x e Dívida Líquida/PL negativa.
Isso acontece quando o caixa é superior à dívida.
Nesse caso, a companhia possui mais recursos financeiros disponíveis do que dívida financeira.
Essa situação é particularmente interessante para empresas que conseguem gerar caixa de forma recorrente.
Outro indicador bastante utilizado pelo mercado é:
Dívida Líquida/EBITDA
Ele compara a dívida líquida com a geração operacional de caixa aproximada pelo EBITDA.
Por exemplo:
Dívida líquida = R$ 1 bilhão
EBITDA = R$ 500 milhões
Dívida Líquida/EBITDA = 2,0x
Se o EBITDA cair para R$ 300 milhões sem alteração da dívida:
Dívida Líquida/EBITDA = 3,33x
Esse exemplo mostra uma característica importante da alavancagem:
o risco pode aumentar mesmo sem a empresa tomar uma nova dívida.
Basta a geração operacional diminuir.
Por isso, uma companhia cíclica pode parecer pouco alavancada em um momento de forte crescimento e tornar-se significativamente mais alavancada quando seu EBITDA cai.
Cobertura de juros e liquidez também importam
Outro indicador importante é a capacidade de pagar os juros.
Pode-se observar, por exemplo:
EBIT ou EBITDA ÷ despesas financeiras
Quanto maior a relação, maior tende a ser a capacidade de a companhia suportar suas despesas financeiras.
Também é importante analisar a liquidez corrente:
Ativo Circulante ÷ Passivo Circulante
Uma empresa pode possuir dívida financeira baixa e, ainda assim, enfrentar problemas de liquidez por causa de fornecedores, impostos, salários, arrendamentos ou outros compromissos de curto prazo.
Portanto, a análise correta não é:
"A dívida é baixa, então a empresa é segura.”
É:
"A dívida é baixa em relação ao patrimônio, a companhia possui caixa suficiente, gera recursos, seus vencimentos são administráveis e suas demais obrigações também são compatíveis com sua capacidade financeira ?"
Essa segunda pergunta é muito mais útil.
A base analisada apresenta os seguintes valores de Dívida Bruta/Patrimônio Líquido:
|
Empresa |
Código |
4T23 |
4T24 |
4T25 |
2T26 |
|
Ambev |
ABEV3 |
4,0% |
4,0% |
4,0% |
3,0% |
|
Bemobi |
BMOB3 |
0,0% |
0,0% |
2,0% |
4,0% |
|
Ferbasa |
FESA4 |
9,0% |
13,0% |
11,0% |
11,0% |
|
Grazziotin |
CGRA4 |
0,0% |
0,0% |
0,0% |
0,0% |
|
Grendene |
GRND3 |
3,0% |
2,0% |
2,0% |
3,0% |
|
Locaweb |
LWSA3 |
3,0% |
3,0% |
3,0% |
3,0% |
|
Lojas Renner |
LREN3 |
19,0% |
9,0% |
4,0% |
7,0% |
|
Metisa |
MTSA4 |
6,0% |
10,0% |
18,0% |
18,0% |
|
Tegma |
TGMA3 |
21,0% |
19,0% |
23,0% |
23,0% |
|
Tim |
TIMS3 |
14,0% |
0,0% |
0,0% |
11,0% |
|
Vivara |
VIVA3 |
14,0% |
16,0% |
18,0% |
16,0% |
fonte: https://bluechipinvest.com.br/
A primeira conclusão é que não existe uma única razão para essas empresas apresentarem baixo endividamento.
Em alguns casos, a explicação está na elevada geração de caixa.
Em outros, no baixo nível de investimentos necessários.
Em outros, na disciplina financeira da administração.
E em alguns casos existe uma combinação desses fatores.
Ambev: escala, geração de caixa e posição financeira extremamente confortável
A Ambev é um dos exemplos mais claros de empresa com estrutura financeira conservadora.
No 2T26, a companhia possuía aproximadamente R$ 2,95 bilhões de dívida total, contra cerca de R$ 18,35 bilhões em caixa, equivalentes e aplicações financeiras correntes. O patrimônio líquido estava próximo de R$ 88 bilhões.
Isso significa que o problema da Ambev não é simplesmente possuir pouca dívida.
Ela possui algo ainda mais importante:
uma quantidade de caixa muito superior à dívida financeira.
Sua Dívida Bruta/PL era de apenas aproximadamente 3,0% no 2T26.
A escala do negócio também ajuda.
A companhia possui marcas consolidadas, grande presença geográfica, elevada capacidade de distribuição e geração operacional relevante.
Essa combinação permite financiar parte significativa das necessidades da operação com recursos próprios.
No 2T26, aproximadamente 36% da dívida estava no curto prazo e 64% no longo prazo, enquanto aproximadamente 28% estava denominada em moeda estrangeira.
A existência de dívida em moeda estrangeira, entretanto, não deve ser analisada isoladamente, pois a companhia também possui operações internacionais e receitas em diferentes moedas.
O principal ponto para o investidor é que uma eventual elevação do custo da dívida possui impacto relativamente limitado sobre uma companhia que apresenta caixa tão superior ao endividamento.
A Bemobi apresenta uma estrutura financeira ainda mais conservadora.
No 2T26, a companhia tinha aproximadamente R$ 41 milhões de dívida bruta, contra cerca de R$ 328 milhões em caixa, resultando em dívida líquida negativa de aproximadamente R$ 287 milhões. A relação Dívida Bruta/PL estava em apenas 4,0%.
A maior parte da dívida estava no longo prazo — aproximadamente 98%, segundo a composição disponível.
A situação é explicada, em parte, pelo perfil relativamente pouco intensivo em ativos físicos de seu negócio.
A Bemobi atua em pagamentos e serviços digitais, segmento no qual o crescimento não exige necessariamente investimentos em infraestrutura física na mesma proporção de setores como telecomunicações, indústria pesada ou infraestrutura.
A companhia também apresentou no 2T26 receita líquida de aproximadamente R$ 227 milhões, crescimento de 36% em relação ao ano anterior, e EBITDA ajustado de R$ 79 milhões, alta de 33%.
O resultado demonstra que a baixa dívida não é simplesmente consequência de uma empresa estagnada.
Ela possui capacidade de crescimento e geração operacional.
O investidor, porém, deve acompanhar se essa geração de caixa continuará suficiente para financiar expansão, investimentos e distribuição de recursos aos acionistas.
Ferbasa: conservadorismo é especialmente importante em um setor cíclico
A Ferbasa apresenta Dívida Bruta/PL de aproximadamente 11,0% no 2T26.
A companhia tinha aproximadamente R$ 353 milhões de dívida bruta e R$ 796 milhões em caixa, de acordo com os dados financeiros mais recentes disponíveis.
A composição da dívida era aproximadamente:
Essa característica é particularmente interessante porque a Ferbasa atua em um segmento industrial sujeito à ciclicidade.
Empresas ligadas a commodities e produtos siderúrgicos podem experimentar forte variação de preços, volumes e margens.
Em períodos favoráveis, a geração de caixa pode aumentar significativamente.
Em períodos desfavoráveis, pode ocorrer justamente o contrário.
Por isso, uma estrutura financeira conservadora funciona como proteção contra o ciclo.
Além disso, a companhia não precisa necessariamente utilizar todo o seu caixa para reduzir a dívida.
Pode manter liquidez para financiar investimentos, manutenção das operações e eventuais oportunidades estratégicas.
A Grazziotin apresenta um dos casos mais extremos da amostra.
A Dívida Bruta/PL permaneceu em 0,0% nos quatro períodos analisados.
Isso significa que, na metodologia utilizada pela base, a dívida financeira bruta é praticamente inexistente em relação ao patrimônio líquido.
No 2T26, o patrimônio líquido estava próximo de R$ 930 milhões e a companhia possuía cerca de R$ 170 milhões em caixa.
Portanto, o ponto central da análise não é apenas a inexistência de dívida.
É a existência de caixa combinado com ausência de dependência relevante de capital de terceiros.
Para uma empresa de varejo, essa característica é particularmente interessante em um cenário de juros elevados.
O varejo costuma sofrer com:
Uma empresa sem dívida financeira possui maior capacidade de atravessar esse ambiente sem que despesas de juros consumam parcela significativa de seus resultados.
Grendene: recursos próprios para financiar operações e investimentos
A Grendene talvez seja o caso mais didático para explicar a relação entre estratégia empresarial e baixo endividamento.
No 2T26, a companhia tinha aproximadamente R$ 95,7 milhões de dívida bruta, contra R$ 452,7 milhões em caixa e aplicações financeiras.
Sua Dívida Bruta/PL era de aproximadamente 3,0%.
A própria companhia informa em seu Formulário de Referência que possui posição sólida de caixa líquido e geração de caixa operacional capaz de financiar suas operações e investimentos com recursos próprios. A empresa ressalva que pode recorrer a financiamento externo quando o custo for suficientemente baixo para gerar valor aos acionistas.
Essa última parte é importante.
Ser conservador não significa ser contra dívida.
Se uma empresa pode captar R$ 100 milhões a um custo baixo e investir esses recursos em um projeto que gera retorno significativamente superior ao custo da dívida, utilizar capital de terceiros pode ser racional.
A Grendene, portanto, não parece adotar a ideia de que dívida é sempre ruim.
A estratégia é diferente:
dívida deve ser utilizada quando fizer sentido econômico.
Locaweb: dívida baixa, mas qualidade operacional continua sendo essencial
A Locaweb apresenta Dívida Bruta/PL de aproximadamente 3,0%, tanto no histórico recente quanto no 2T26.
No período mais recente, possuía aproximadamente:
A dívida estava aproximadamente:
A situação financeira, portanto, é confortável.
Mas o caso da Locaweb mostra uma das maiores limitações da análise baseada em endividamento.
Uma empresa pode possuir caixa líquido e ainda apresentar problemas operacionais.
Os dados recentes mostram justamente essa necessidade de cautela: a companhia vem enfrentando dificuldades de rentabilidade, e o EBITDA anualizado disponível na base estava negativo.
Assim, o investidor não deveria concluir:
“Locaweb tem pouca dívida, então a ação é boa.”
A conclusão correta seria:
“Locaweb possui um balanço financeiro que reduz o risco de insolvência, mas ainda é necessário comprovar a recuperação operacional.”
Lojas Renner: desalavancagem, caixa líquido e o alerta dos passivos contingentes
A Lojas Renner é provavelmente o caso mais interessante desta análise.
Primeiro, pela evolução da dívida.
A relação Dívida Bruta/PL caiu de:
19,0% em 2023 → 9,0% em 2024 → 4,0% em 2025 → 7,0% em 2T26.
A dívida bruta também caiu de aproximadamente R$ 3,47 bilhões em 2021 para R$ 380 milhões em 2025. No 2T26, a dívida bruta voltou a R$ 758 milhões, mas a companhia mantinha cerca de R$ 1,9 bilhão em caixa e uma posição de caixa líquido de aproximadamente R$ 1,2 bilhão.
A dívida bruta estava concentrada no curto prazo no 2T26, com aproximadamente 94% no curto prazo e 6% no longo prazo.
À primeira vista, portanto, o balanço é muito confortável.
Mas existe uma informação que o investidor não deveria ignorar:
Em 31/03/2026, a Lojas Renner informou que os passivos contingentes tributários classificados como perdas possíveis somavam aproximadamente:
R$ 1,72 bilhão na controladora
e
R$ 2,00 bilhões no consolidado.
Em dezembro de 2025, os valores eram aproximadamente R$ 1,67 bilhão na controladora e R$ 1,94 bilhão no consolidado.
Esse número explica a lembrança de que o passivo contingente da Renner era muito superior aos R$ 31 milhões que mencionei anteriormente.
O valor de aproximadamente R$ 31 milhões refere-se especificamente a um auto de infração da Realize, e não representa toda a exposição contingente do grupo.
As contingências tributárias da Lojas Renner envolvem, entre outros temas:
Não.
Essa distinção é fundamental.
Os aproximadamente R$ 2 bilhões são classificados como perdas possíveis.
Isso significa que, segundo a avaliação jurídica e contábil existente, não havia obrigação presente que justificasse reconhecer esse valor integralmente como provisão.
Portanto, seria incorreto simplesmente fazer:
Dívida líquida de -R$ 1,2 bilhão + R$ 2 bilhões de contingências = dívida líquida potencial de R$ 800 milhões.
Essa conta não é contabilmente correta.
Porém, também seria errado ignorar completamente o número.
O que ele representa é uma exposição potencial.
Se determinados processos mudarem de classificação de possível para provável e passarem a exigir provisionamento, o patrimônio líquido e o resultado da companhia poderão ser afetados.
Se posteriormente houver pagamento, haverá também impacto no caixa.
Portanto, o investidor precisa acompanhar a evolução dessas ações.
O ponto positivo é que a Renner possui uma estrutura financeira bastante robusta.
No 2T26, o grupo apresentava cerca de R$ 1,9 bilhão em caixa e R$ 1,2 bilhão de caixa líquido. Além disso, a geração de caixa operacional da companhia é relevante.
Consequentemente, mesmo uma materialização parcial das contingências não teria necessariamente o mesmo impacto que teria em uma empresa altamente endividada.
Mas o tamanho da exposição é suficientemente relevante para justificar acompanhamento.
Essa é uma das principais lições desta análise: uma empresa pode apresentar dívida financeira muito baixa e ainda possuir riscos patrimoniais relevantes fora da dívida.
A Metisa apresenta uma situação um pouco diferente.
A Dívida Bruta/PL passou de:
6,0% em 2023 → 10,0% em 2024 → 18,0% em 2025 → 18,0% em 2T26.
Ou seja, apesar de continuar em nível baixo, houve aumento significativo.
No 2T26, a companhia tinha aproximadamente:
A dívida estava aproximadamente:
A dívida líquida continuava negativa.
Esse caso mostra por que não devemos olhar apenas para o número atual.
A tendência também importa.
Uma empresa com 18,0% pode estar muito bem financeiramente.
Mas, se o indicador passou de 6,0% para 18,0% em poucos anos, o investidor deve descobrir por que isso aconteceu.
Foi para financiar crescimento?
Para aumentar estoques?
Para adquirir ativos?
Para distribuir dividendos?
Ou porque o fluxo de caixa operacional enfraqueceu?
A resposta pode alterar completamente a interpretação.
Tegma: baixa alavancagem
Tegma: baixa alavancagem em um setor que exige capital
A Tegma no 2T26 tinha:
Portanto:
A relação Dívida Bruta/PL da sua base era de aproximadamente 23,0% no 2T26, portanto maior que a das demais empresas analisadas, mas ainda relativamente baixa.
A característica mais importante é que a empresa apresentava caixa líquido.
A Tegma atua em logística automotiva, um segmento que exige investimentos em pátios, equipamentos, tecnologia e transporte.
Mesmo assim, a companhia conseguiu manter uma estrutura financeira conservadora.
No 2T26, o EBITDA foi de R$ 131,3 milhões e o EBITDA ajustado de R$ 138,5 milhões, enquanto o ROIC chegou a 31,8%.
A companhia também contratou R$ 15 milhões de financiamento pela linha Renova Frota do BNDES, com prazo de cinco anos e custo de CDI menos 2,2%.
Isso reforça uma ideia importante:
uma empresa financeiramente disciplinada não precisa evitar toda e qualquer dívida.
Ela pode utilizar financiamento quando o custo é atrativo e o dinheiro é direcionado a ativos produtivos.
No caso da Tegma, o custo médio total da dívida bruta em junho de 2026 era de aproximadamente CDI + 0,94%, e a Fitch havia reafirmado o rating A (bra), com perspectiva estável.
TIM: dívida baixa, geração recorrente — mas contingências exigem atenção
TIM apresenta Dívida Bruta/PL de aproximadamente:
14,0% em 2023 → 0,0% em 2024 → 0,0% em 2025 → 11,0% em 2T26.
No 2T26, a companhia tinha aproximadamente:
A dívida estava aproximadamente:
Portanto, a TIM apresentava caixa líquido.
A natureza do negócio também ajuda.
Telecomunicações possui receitas relativamente recorrentes, provenientes de uma ampla base de clientes.
Ao mesmo tempo, o setor exige investimentos elevados em infraestrutura.
A TIM vem combinando geração de caixa com disciplina de capital e chegou a utilizar caixa próprio para antecipar obrigações financeiras de suas controladas.
Mas existe um alerta importante: contingências tributárias
A TIM apresenta um dos casos mais importantes de passivos contingentes entre as empresas analisadas.
Nas demonstrações financeiras de 2024, a companhia possuía aproximadamente R$ 22,239 bilhões em contingências classificadas como perdas possíveis, além de aproximadamente R$ 760 milhões provisionados para contingências tributárias.
O próprio auditor classificou o tema como assunto significativo de auditoria, destacando a magnitude dos valores e os julgamentos envolvidos na determinação dos prognósticos de perda.
Mais uma vez:
R$ 22,2 bilhões não representam uma dívida adicional da TIM.
Não significa que a companhia irá perder R$ 22,2 bilhões.
Mas significa que a análise de risco financeiro da TIM não pode ser feita apenas olhando para:
Dívida Bruta/PL = 11,0%
ou:
Dívida Líquida/EBITDA = posição confortável.
É necessário considerar também o risco jurídico e tributário.
Esse é um excelente exemplo de por que o balanço patrimonial deve ser analisado além das linhas tradicionais de dívida.
Vivara: expansão sem alavancagem excessiva
A Vivara apresenta Dívida Bruta/PL de:
14,0% em 2023 → 16,0% em 2024 → 18,0% em 2025 → 16,0% em 2T26.
No 2T26, a dívida bruta estava próxima de R$ 518 milhões, contra aproximadamente R$ 417 milhões em caixa e patrimônio líquido de R$ 3,18 bilhões.
A dívida estava aproximadamente:
A dívida líquida caiu para aproximadamente R$ 141 milhões, uma redução de 57% em relação ao 2T25.
A relação Dívida Líquida/EBITDA ajustado caiu para aproximadamente 18,0%
Isso aconteceu ao mesmo tempo em que a companhia continuou expandindo sua rede.
No 2T26, a geração de caixa operacional chegou a aproximadamente R$ 147 milhões e a companhia destacou a forte melhoria na gestão dos estoques.
A Vivara mostra, portanto, que dívida pode ser utilizada para financiar expansão sem necessariamente representar risco elevado, desde que a geração de caixa acompanhe o crescimento.
Por que a baixa dívida é tão importante durante uma crise?
Imagine uma companhia altamente alavancada.
Antes da crise:
Agora ocorre uma recessão.
A receita cai 15%.
O EBITDA cai 30%, para R$ 700 milhões.
Sem contratar nenhuma nova dívida:
Dívida Líquida/EBITDA = 4,3x
Se os juros também subirem, a situação piora.
Se a empresa ainda precisar financiar capital de giro, pode ser obrigada a contratar novas dívidas justamente quando o crédito estiver mais caro.
É esse efeito que torna a alavancagem perigosa.
Empresas pouco endividadas podem fazer o contrário durante a crise
Uma companhia com caixa líquido possui uma vantagem estratégica.
Durante uma crise, pode:
Isso é particularmente importante porque crises não afetam todas as empresas da mesma maneira.
Uma empresa altamente endividada pode precisar vender ativos.
Uma empresa com caixa pode ser justamente a compradora.
Assim, a solidez financeira não serve apenas para sobreviver.
Pode servir para aumentar a vantagem competitiva.
O papel da moeda estrangeira
Outro ponto frequentemente ignorado é a moeda da dívida.
Uma dívida de R$ 1 bilhão em reais não possui exatamente o mesmo perfil de risco de uma dívida equivalente em dólares.
Se o real se desvalorizar fortemente, uma dívida em dólar pode aumentar quando convertida para reais.
Porém, novamente, não se deve concluir que:
“dívida em dólar = ruim”.
Uma empresa exportadora pode receber dólares e possuir dívida em dólares.
Nesse caso, existe uma proteção natural.
A análise correta é:
Qual é a exposição cambial líquida?
E não simplesmente:
Quanto da dívida está em moeda estrangeira?
Na Ambev, por exemplo, parte da dívida estava denominada em moeda estrangeira, mas a companhia possui operações internacionais relevantes. Na Grendene, financiamentos relacionados a exportações também podem apresentar exposição cambial coerente com suas operações internacionais.
Já empresas predominantemente domésticas precisam ter atenção especial caso contratem dívida em moeda estrangeira sem proteção adequada.
Passivo contingente: o “risco fora da dívida"
Essa talvez seja a principal lição adicional deste estudo.
Quando o investidor observa:
Dívida Bruta
Caixa
Dívida Líquida
EBITDA
ele está analisando principalmente o endividamento financeiro.
Mas uma empresa possui outras obrigações potenciais.
É aí que entram os passivos contingentes.
Eles podem estar relacionados a:
O CPC 25 estabelece, de maneira simplificada, que as obrigações são tratadas conforme a probabilidade de saída de recursos.
Perda provável
Normalmente há reconhecimento de provisão quando existe obrigação presente e estimativa confiável.
Perda possível
Normalmente não há provisão, mas o processo é divulgado em notas explicativas.
Perda remota
Em regra, não há necessidade de provisão ou divulgação.
Para o investidor, a categoria possível é especialmente importante.
Ela não representa uma dívida. Mas pode representar uma exposição econômica relevante.
Por que uma contingência pode mudar completamente uma análise?
Imagine:
Empresa A
Dívida bruta: R$ 500 milhões
Caixa: R$ 1 bilhão
Dívida líquida: -R$ 500 milhões
Parece excelente.
Agora imagine que existam R$ 2 bilhões em processos classificados como perda possível.
A empresa continua tendo caixa líquido.
Não seria correto adicionar automaticamente os R$ 2 bilhões à dívida.
Mas seria igualmente incorreto concluir que não existe risco.
Agora imagine uma segunda empresa:
Empresa B
Dívida líquida: R$ 500 milhões
EBITDA: R$ 500 milhões
Dívida Líquida/EBITDA: 1x
Sem contingências relevantes.
A Empresa A provavelmente continua possuindo uma estrutura financeira melhor.
Mas a magnitude das contingências da Empresa A precisa entrar na análise de risco.
É exatamente por isso que o investidor deve avaliar:
Contingências possíveis / Patrimônio Líquido
Contingências possíveis / EBITDA
Contingências possíveis / Caixa
Essas relações não são indicadores contábeis oficiais de alavancagem, mas ajudam a dimensionar o potencial impacto.
O caso da Lojas Renner é especialmente interessante
A Renner tinha aproximadamente R$ 2 bilhões em contingências tributárias possíveis no consolidado no 1T26.
Seu patrimônio líquido estava próximo de R$ 10,4 bilhões e a companhia possuía caixa líquido de aproximadamente R$ 1,2 bilhão no 2T26.
Portanto, a contingência possível representava aproximadamente 19% do patrimônio líquido com base no valor de março de 2026.
Isso é material.
Mas não significa que 19% do patrimônio será perdido.
A classificação “possível” possui justamente essa incerteza.
O investidor deve acompanhar:
Esse é um nível de análise muito mais sofisticado do que simplesmente verificar se a empresa possui dívida.
E o caso TIM é ainda mais extremo
A TIM possuía aproximadamente R$ 22,2 bilhões em contingências possíveis na posição de 2024.
O valor é muito superior à sua dívida financeira bruta.
Isso não significa que a TIM esteja financeiramente insolvente.
A companhia possui caixa, geração de caixa recorrente e uma estrutura de dívida administrável.
Mas o exemplo demonstra que o risco financeiro de uma companhia não pode ser medido apenas pelos empréstimos e financiamentos registrados no balanço.
Em uma análise de longo prazo, riscos tributários e jurídicos podem ser economicamente relevantes.
Quais indicadores devem ser analisados além da dívida?
Depois de estudar a estrutura financeira, o investidor ainda precisa responder a uma pergunta mais importante:
A empresa consegue gerar valor para o acionista?
Para isso, considero fundamental observar pelo menos seis grupos de indicadores.
1. Crescimento
É importante observar vários anos, e não apenas um trimestre.
2. Margens
Margens estáveis ou crescentes podem indicar vantagem competitiva e eficiência operacional.
3. Rentabilidade
Especialmente:
ROE
e
ROIC
O ROE mostra o retorno sobre o patrimônio dos acionistas.
O ROIC permite avaliar melhor a eficiência do capital empregado na operação.
Uma empresa com pouca dívida e ROIC baixo não necessariamente está criando valor.
4. Fluxo de caixa
É necessário verificar se o lucro está se transformando em dinheiro.
Os principais itens são:
A Tegma, por exemplo, apresentou ROIC de 31,8% no 2T26, enquanto a Vivara apresentou forte recuperação na conversão de EBITDA em caixa.
5. Alocação de capital
O que a administração faz com o dinheiro?
Ela:
Uma excelente empresa pode destruir valor se fizer aquisições ruins ou investir em projetos de baixo retorno.
6. Valuation
Finalmente:
quanto o investidor está pagando?
Uma empresa excelente pode ser uma péssima compra se estiver negociada a um preço exagerado.
Devem ser observados, conforme o setor:
Qual seria uma “empresa ideal” para o investidor de longo prazo?
Não existe uma fórmula perfeita, mas uma combinação particularmente interessante seria:
Crescimento
Receita e lucro crescendo consistentemente.
Rentabilidade
ROIC e ROE elevados.
Margens
Margens estáveis ou crescentes.
Caixa
Forte geração de fluxo de caixa livre.
Dívida
Dívida líquida baixa ou negativa.
Contingências
Baixa exposição potencial ou processos claramente administráveis.
Governança
Boa alocação de capital e transparência.
Valuation
Preço que ofereça margem de segurança.
Essa combinação é muito mais importante do que simplesmente procurar empresas com Dívida Bruta/PL abaixo de determinado número.
Conclusão
A análise das empresas selecionadas mostra que uma estrutura financeira conservadora pode representar uma importante vantagem competitiva no longo prazo.
Ambev possui enorme geração de caixa e posição financeira extremamente confortável.
Bemobi apresenta baixo nível de dívida e caixa líquido, apoiada por um modelo relativamente pouco intensivo em capital.
Ferbasa combina baixa alavancagem com uma estrutura que oferece proteção importante para enfrentar a ciclicidade de seu setor.
Grazziotin praticamente não depende de dívida financeira.
Grendene possui histórico de financiar operações e investimentos
Locaweb possui caixa líquido e dívida pequena, embora sua situação operacional mostre por que balanço saudável não significa necessariamente ação atrativa.
Lojas Renner apresenta uma trajetória relevante de desalavancagem e atualmente possui caixa líquido, mas exige atenção especial para seus passivos contingentes tributários, que chegaram a aproximadamente R$ 2 bilhões classificados como perdas possíveis no consolidado em março de 2026.
Metisa mantém dívida moderada e caixa superior ao endividamento, embora a evolução da Dívida Bruta/PL nos últimos anos mereça acompanhamento.
Tegma demonstra que mesmo uma empresa de logística automotiva pode manter estrutura financeira conservadora, com caixa líquido e dívida predominantemente de longo prazo.
TIM apresenta dívida líquida negativa e forte geração recorrente, mas possui uma exposição contingente tributária extremamente relevante, que não pode ser ignorada.
Vivara mostra que uma companhia em expansão pode utilizar capital de terceiros sem assumir alavancagem excessiva, desde que a geração de caixa acompanhe o crescimento.
A principal conclusão, entretanto, vai além dessas empresas.
Dívida baixa não significa automaticamente que uma ação seja boa.
Da mesma maneira, dívida elevada não significa necessariamente que uma empresa seja ruim.
O que importa é compreender a relação entre:
dívida + caixa + geração de caixa + rentabilidade + crescimento + custo da dívida + vencimentos + moeda + contingências + valuation.
Além disso, o investidor deve prestar atenção especial aos períodos de crise.
Uma empresa altamente alavancada pode ser obrigada a reduzir investimentos justamente quando surgem as melhores oportunidades.
Uma empresa com caixa e baixa dívida pode fazer o contrário: investir, comprar concorrentes, recomprar ações ou ganhar participação de mercado.
Por isso, uma estrutura financeira conservadora pode funcionar como uma verdadeira opção estratégica.
Existe ainda uma última lição importante.
Ao analisar uma empresa, não basta perguntar:
“Quanto ela deve?”
É necessário perguntar:
“Quanto ela deve, quanto possui em caixa, quanto consegue gerar de caixa, quando precisa pagar suas obrigações e quais passivos potenciais podem surgir no futuro?”
A análise dos passivos contingentes acrescenta justamente essa última dimensão.
O caso da Lojas Renner demonstra que uma empresa pode apresentar uma posição de caixa líquido superior a R$ 1 bilhão e, simultaneamente, possuir aproximadamente R$ 2 bilhões em contingências tributárias classificadas como perda possível.
O caso da TIM é ainda mais expressivo: uma companhia com dívida líquida confortável pode possuir dezenas de bilhões de reais em contingências possíveis.
Nenhum desses valores deve ser tratado automaticamente como dívida.
Mas nenhum deles deve ser ignorado.
Para o investidor de longo prazo, a verdadeira solidez financeira não está apenas em possuir pouca dívida. Está em possuir capacidade de gerar caixa, preservar capital, administrar riscos e atravessar períodos adversos sem comprometer a capacidade de criar valor no futuro.
E é justamente essa combinação — segurança financeira, rentabilidade, crescimento, geração de caixa e preço adequado — que deve estar no centro de uma análise fundamentalista de longo prazo.
Disclaimer:
As informações apresentadas neste artigo possuem finalidade exclusivamente educacional e informativa, sendo baseadas em dados públicos e na interpretação do autor sobre os fundamentos das companhias analisadas. Este conteúdo não representa relatório de análise, recomendação de investimento, oferta ou solicitação de compra ou venda de valores mobiliários. Investimentos em renda variável envolvem riscos, e decisões de investimento devem considerar os objetivos, o perfil de risco e a situação financeira de cada investidor.